Adoro Dar Aula – Blog

O professor fala, fala e fala. Mostra slides, lê o que está escrito neles e continua falando, falando, falando. De repente ele para, pergunta “Alguém tem alguma coisa a dizer?” e fica aquele silêncio sepulcral. Sem desistir, ele insiste: “Eu gostaria de ouvir alguém”, mas os alunos continuam em silêncio, só que agora desviando o olhar, com medo que o professor faça cold call para quem estiver minimamente olhando para ele. Depois de dois minutos ele desiste, solta um comentário “Tem gente que está meio tímido hoje” e volta a falar, falar e falar.

Você com certeza já assistiu a aulas em que ocorreram situações semelhantes, mas reflita o quanto isso acontece nas suas próprias aulas. Várias podem ser as razões, como falta de empatia ou conexão, conteúdo desinteressante e/ou exaustão dos alunos, mas quero falar mais sobre, em minha opinião, o principal ponto fraco das aulas sem participação dos alunos: a falta de PLANEJAMENTO. Você pode ser simpático e trazer conteúdo útil para uma turma motivada, mas sem PLANEJAMENTO, você vai acabar falando em voz alta “Eu queria ouvir mais gente” ou “Eu não gosto de ficar só falando”, e não vai adiantar nada.

Ao planejar o roteiro da sua aula, insira discussões em dupla, debate em plenária, perguntas estratégicas no meio da sua explanação, discussão de caso, resolução de exercícios práticos e outras metodologias ativas de aprendizagem. Quando você planeja uma aula muito expositiva, o aluno (i) não presta tanta atenção, (ii) se acomoda para ficar apenas ouvindo, ou (iii) se cansa. E se no meio da sua longa exposição você pergunta “Alguém tem alguma dúvida?” ou “Quem gostaria de falar?”, é muito provável que o retorno seja baixo.

Aprendi a planejar as minhas aulas, palestras e apresentações criando quatro colunas no Excel: Tempo estimado, Ação do aluno, Ação do professor e Material de apoio.

Tempo estimado: quanto tempo este trecho específico da aula vai consumir;

Ação do aluno: o que eu espero que o aluno faça neste trecho da aula, que pode ser “Ouvir o professor” ou algo mais dinâmico como “Interagir com o aluno vizinho para…”, “Resolver o exercício”, “Registrar o seu comentário no Google Docs e compartilhar em plenária”, etc.;

Ação do professor: o que eu estou fazendo dentro do tempo estimado para o aluno aprender;

Material de apoio: qual o número do slide que eu vou apresentar na tela ou qual arquivo impresso eu vou entregar durante este trecho da aula.

Em uma palestra de 60 minutos, é comum eu dividi-lo em mais de uma dezena de trechos e preencher as quatro colunas de cada trecho, prestando atenção na concatenação, se a sequência faz sentido e leva o aluno ao objetivo de aprendizagem pré-definido.

E o que isso tem a ver com a passividade dos alunos? Sempre presto atenção na quantidade de trechos onde a Ação do aluno é “Ouvir o professor”, pois representam a parte expositiva (lecture) da aula e eu fico falando sozinho. Se tiver muitos trechos com “Ouvir o professor” numa aula, ou pior, uma sequência grande de trechos com “Ouvir o professor”, eu já sei que poderei perder alguns alunos pelo caminho e preciso rever o PLANEJAMENTO da minha aula, inserindo atividades mais ativas e participativas para o aluno estar sempre ligado.

Muitos me perguntam como eu consigo prender a atenção dos alunos por 3 horas seguidas à noite, e eu respondo: com PLANEJAMENTO para a aula ser dinâmica, movimentada, tomando cuidado com o “Ouvir o professor”.

A pergunta “Quem gostaria de falar?” tem que vir na hora certa, planejada, e não no meio da sua lecture, como se viesse do além. Depois, não adianta tentar ser simpático e comentar “Vocês estão quietinhos hoje, hein?”. RIP.

Observação: Você tem interesse em conhecer mais sobre a Roteirização das minhas aulas, palestras e apresentações? Comente aqui que eu posto alguns roteiros reais com as quatro colunas preenchidas.